domingo, 15 de abril de 2012

PARE, OLHE, E PENSE





                                    Por aqui passam trens. Passam?

                                    Que trens? Trem-saudade? Trem-engabelação?
                                    Que fim levaram os trens
                                    (que hoje já não passam mais)
                                    carregados, ufanados com os frutos
                                    do suor dos filhos deste chão?
                                    Descarrilaram, soçobraram com os projetos
                                    neo-liberais?
                                    Pois enquanto por aqui passavam trens
                                    (que hoje já não passam mais)
                                    nas estradas não havia esse horror
                                    - tão ao gosto dos telejornais -
                                    de famílias soterradas
                                    sob carretas colossais.

                                    E essa tristeza, esse abandono,
                                    Obedecem cláusulas contratuais?
                                    Pare, olhe, e pense:
                                   

                                    Quem ganha, quem perde,
                                    quem chega, quem parte,  
                                    quem chora, quem ri,
                                    se trens como antes
                                    já não passam mais por aqui?...



 
                         

segunda-feira, 26 de março de 2012

COMO NÃO SE DEVE MATAR UM GATO

   





Contam que um sujeito, perverso e desastrado, certa feita foi matar um gato. Por que resolvera matá-lo, isso ninguém (a não ser ele) saberia dizer. Talvez mesmo por que fosse perverso...
    O certo é que numa manhã, cedinho ainda, alguém avistou sua figura delgada rumando a um descampado, carregando algo num saco de estopa nas costas. Uns quatro guaipecas iam atrás, fazendo festa. Desciam por um atalho estreito, entre vassouras, guanxumas e barbas-de-bode lavadas pelo orvalho, o que ia deixando a comitiva toda encharcada.
     Lá embaixo na mata, os passarinhos davam as boas-vindas para uma manhã estranhamente fria para um   mês de novembro. Na direção do poente, encravada num azul esmaecido, uma lua que não passava de uma lasca de unha, espiava entre nuvens negras e densas. Consta ainda que soprava um vento maroto proveniente das bandas do Paraguai.
    Depois do atalho havia uma cerca de arame farpado. Depois da cerca, um potreiro. E logo ali adentrando, pararam. E por entender que naquele plano, onde predominava a grama rala permeada por esparsos e agrestes pés de joá, mata-campo e maria-mol, por entender que ali seria um ótimo local para realizar o seu intento macabro, o sujeito -cercado pela ânsia barulhenta dos cães- se agachou e, lá como quem ergue o pano para dar início a um espetáculo, abriu então a bolsa... Pra quê!
    O gato -um formidável animal de pelo preto-, emergindo assim de soco para uma contracena tão desgraçada, encurralado, prevendo seu couro em tiras, num piscar de olho, dá um pulo no ombro do ruindade - que se levanta de imediato, como se levasse um choque. A cachorrada, em pé, tentava  abocanhar o  bichano, que era um arco crispado e colérico no cocoruto do infeliz. Aturdido e se retorcendo de dor, ele procurva em vão  se livrar do gato, puxando-o pelo rabo; dava coices para afastar a cachorrada, e nada. Para piorar, lá pelas tantas, no afã, um dos cachorros rasgou-lhe uma orelha. Numa gritaria, todo ensanguentado, o desgraçado saiu numa disparada -e a cachorrada de atrás- ao encontro de um pé de pata-de-vaca, onde o gato finalmente saltou... Arre!
    Também, depois dessa, até hoje o vivente corta volta quando enxerga um gato preto. Não deve duvidar que dá azar...

                                              Giruá, Terra dos Butiazeiros, agosto de 2006.  

domingo, 25 de março de 2012

VERUSKA

                   

   


   
   
   

     Hora do recreio.
    A professora Veruska estava agachada no pátio da escola, fazendo não se sabe exatamente o que,  e naquela posição deixava transparecer entre a blusa branca e a calça jeans algo mais do que o cós da calçinha cor de creme sobre a pele tostada como calda de acúcar. Então um menino que por ali passava, ao
focar os olhos naquele recôndito, parou, e cutucou um colega de classe, que também fez sinal para um outro; e logo uma meia-lua de olhos faiscantes se formou às costas da professorinha.
    Porém ela, percebendo o burburinho, vira-se bruscamente e, para uma profe que é casada, mãe, e que, apesar do corpo fornido e atraente, ostenta uma cara dura e fama de braba, surpreende os pequenos faunos extasiados sob o sol da manhã ao se sair com essa:
    -Estão aí se alegrando por quê? Esse cofrinho é só para maiores... de um real!
    Os garotos ficam perplexos. Nunca esperavam por aquela. Logo de quem... Mas um espertinho logo se desprende do mutismo basbaque, e propõem as parceiros:
    -Legal! Vamos roubar dinheiro... MAIS DE UM REAL!!!

    Moral: Às vezes uma provocação pode levar a uma falsa interpretação.

                                                      Março de 2008.

UMA QUESTÃO DE FREIO

               









    Deus fez o Homem. O Homem, a roda. E o Diabo se meteu no freio.
    E foi justamente para consertar o freio que um dia Y levou a uma oficina a sua camioneta.  E para que ele comprasse uma peça para reposição, emprestou-lhe o mecânico a sua bicicleta.
    Era de-tardinha, quando as sombras se espicham sobre o betume da Coronel Braulio de Oliveira. E tarde foi quando Y percebeu -num lançante- que de freio menos pior estaria na camioneta do que na malfadada bicicleta!...
                                           ***
    Meia hora depois reaparece Y na oficina: bicicleta amassada, celular quebrado, roupa rasgada, braços lanhados; mas firme na mão, feito troféu -de sangue manchado-, a peça.
    Enfim, uma lição e um consolo: em se tratanto de freio, até mesmo veículo de mecânico velhaca. Porém, tivesse Y ido à pé até a loja, não teria acontecido este pequeno conto-acidente.

                                              Giruá, fevereiro de 2007.